sexta-feira, fevereiro 27, 2009

O Mito do amor que completa

Típico da civilização atual, o mito do amor que completa se origina na infelicidade e insatisfação social.Tal como a insatisfação pública gera o mito do herói, a solidão gera o mito do amor. O maior câncer¹ da cultura contemporânea é o hábito nefasto de afastar de si a responsabilidade sobre si mesmo, depositando-a nas mãos etéreas do Estado, do Destino, da mítica Sociedade.

Já viste a sociedade? Já conversaste com ela? Como pode este organismo maléfico de efeitos tão nocivos, confundir-se tão intimamente conosco em seu conceito essencial?

Simplesmente por que a Sociedade é formada por nós, ainda que usada como depósito imaginário de tudo o que há de podre dentro de nós, bem como dos renegados responsabilidade e poder de decisão.

Dissipando-se estes agentes ilusórios, criados por nós para aliviar a realidade, nos deparamos com algo nem tão duro nem tão frio, mas perfeitamente aceitável que é a felicidade e a plenitude da existência².

Quando temos a coragem necessária para resgatar para nossas mãos a responsabilidade por nossa existência, para voltarmos a ser os únicos capazes de escolher por nós, de optar por ser o que queremos ser³, então não há fator externo mais capaz de nos tornar felizes que a nossa consciência.

O mito do amor que completa é uma consequência e uma causa da emancipação da felicidade, que deixa de ser parte de nós para ser vista como um objeto, uma fator que nos causaria a felicidade. Nega-se a felicidade quando se racionaliza este instinto natural de contentamento.

A necessidade de um motivo pra ser feliz encaixa-se na organização social monogâmica e patriarcal em que vivemos, formando a idéia errônea de que é preciso viver um amor conjugal para ser completo e feliz. Que o amor é o agente causador da felicidade buscada, tão cegamente, em todos os lugares errados. A Plenitude, nunca encontrada, provoca a desilusão amorosa, a frustração da espectativa de vida plena com o ser amado .

Somente na admissão de si mesmo, e não do amor, como agente da nossa felicidade, é que será possível a realização pessoal e conjugal, bem como da vida pública, por consequência.

O amor não é uma necessidade, uma obrigação ou um caminho para regeneração. O amor é natural e involuntário, um instinto inofensivo. O amor deve ser vivido, não especulado, nem cobrado de qualquer coisa boa que dizem vir do amor. Mas isso é matéria pra outro post, esse aqui acabou.