É uma traça que está mais pra monstro que pra traça. Que se alimenta de livros, de móveis, de vida e de gente. De plantas, de quadros, de fotos, de rostos. Almoça juventude, janta alegria, deixa rastros sobre a mesa. Consome lentamente as vísceras imateriais da lembrança da infância, afasta seus restos mortais. Jamais foi vista passando ou comendo, apenas sentimos o vazio deixado quando nos corrói por dentro. Eternamente roendo e cumprindo seu fado. E pra quem duvida de seu trabalho, corrói por fora, trabalho dobrado. Por onde ela passa, desfaz o passado, desfaz o sentido, desfaz a memória. O medo e a raiva se quedam aos pés daquela que também digere a insegurança. A saudade é a única imune à sua boca e seus dentes, pois até os afetos ela mina. Tão cruel é a traça do tempo.
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