Após o fracasso dos contos sem fim¹. Inauguro agora (oficialmente) os monólogos sem começo (e sem noção):
Diferentemente das religiões, que se ocupam com o começo e o fim de tudo, preocupo-me imensamente com o intermediário – que é o que sinto, portanto acredito.
Temente nenhum pode entender o desespero que se abate sobre as pessoas sem religião. Subordinado nenhum pode entender o que é ter medo da própria grandeza – mesmo que esses também a temam inconscientemente. Enquanto as pessoas levam suas vidas com desgosto e desprazer, eu vivo cada segundo com o pesar de não estar aproveitando a única oportunidade que tenho. Já chorei com medo de estar me matando e não tenho certeza se era o medo da morte ou do suicídio que me assustava. Só não lembro de ter pensado no que viria depois, embora eu espere sinceramente que tenha um fim. O pior castigo pra mim seria descobrir que a consciência será eterna, e que eu nunca deixarei de me arrepender pelo tempo perdido, mas é claro, que nas religiões cada sofrimento é lucro e cada sacrifício vai para o nosso saldo para com Deus – Aquele com que “compramos o nosso lote no céu”. Para o ateu, não. Cada felicidade é uma preciosa felicidade e cada sofrimento é só um sofrimento.
Agora me repreendo pelo (mal) uso do termo “ateu”, eu falava daquele indivíduo que em nada crê. Que me desculpem os ateus que ampliaram e deturparam tão simplório significado, mas eu sou uma mente bloqueada² e antiquada e custarei a aderir ao pejorativo de que ateu é aquele que acredita, desrespeita, odeia e incomoda-se com a insistente existência de Deus.
Que compreendam, então, os colegas cristãos, que eu nada tenho contra sua fé. Que me compreendam que o ateísmo me foi apenas um desafio, viver sem o consolo da vida eterna não é nada inspirador, mas nada se compara à plenitude de triunfar sobre o desespero e a desilusão.
Viver é, para mim, um desafio pessoal que me ergue toda manhã, de me abalar e me apoiar (só) em mim e de um dia chegar à calmaria do equilíbrio. Sem a felicidade eufórica ou o desespero que afunda. Só as poucas certezas, as muitas dúvidas e a loucura interna. A Certeza é feia, mas é melhor que a fé bela e oca! Se a dúvida é inimiga da fé, sempre escolho a certeza – que é inimiga do mundo!
¹ - “Contos sem fim”, os contos que eu escrevia, batizados pela Nena.
² - Soraya sempre diz isso. U.u
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